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A importância de antecipar a irrigação para controlar plantas daninhas e aumentar a produtividade

Por Mara Grohs, Luiz Fernando Flores de Siqueira e Paulo Fabrício Sachet Massoni


A água é considerada o herbicida mais eficiente da lavoura de arroz. Isso porque, a lâmina de irrigação cria uma barreira física de transporte de oxigênio da atmosfera até o banco de sementes que está no solo, além de dificultar a passagem de luz, o que impede, ou dificulta a emergência das sementes que estão presentes na área. Atualmente, a recomendação oficial segundo a Sociedade Brasileira de Arroz Irrigado é de que a irrigação definitiva se inicie quando o arroz esteja com três a quatro folhas. Segundo o minicenso realizado pelo IRGA na safra 2014/15 onde foram consultados mais de 650 mil hectares de arroz, 80 % dos produtores declaram iniciar a irrigação nesse estádio de desenvolvimento. O manejo estaria correto, não fosse o atraso em finalizar essa irrigação, que acaba sendo atrasada em até três semanas, com o arroz já no perfilhamento. Isso traz prejuízos bastante severos em relação ao potencial produtivo da lavoura, mas fundamentalmente impacta diretamente na eficiência dos herbicidas que são aplicados na lavoura, que são altamente dependentes de umidade para garantir uma performance satisfatória.


A problemática da época de semeadura foi tão discutida, que aparentemente foi internalizada, visto que na safra 2018/19, 89 % dos produtores semearam as suas lavouras dentro da época recomendada, ou seja, até 15 de novembro. Isso porque, o posicionamento das cultivares em épocas erradas reflete em uma perde de 50 a 75 kg/ha/dia. A questão é que o atraso da irrigação, após o arroz iniciar o perfilhamento acarretará em um prejuízo de mais de 100 kg/ha/dia, ou seja, o prejuízo é maior que o atraso na época de semeadura. O ponto-chave para aumentarmos a produtividade média do Estado do RS está na semeadura das nossas lavouras no momento ideal finalizando a irrigação com o arroz até quatro folhas.

O maior exemplo da eficiência da irrigação, é o sistema pré-germinado, onde se utiliza a lâmina de água como uma barreira física impedindo ou dificultando a germinação de plantas daninhas e ainda favorecemos a planta de arroz com o fenômeno da “autocalagem” que eleva o pH e libera do solo nutrientes essenciais para o desenvolvimento do arroz. E mesmo nesse ambiente nada confortável para a semente pré-germinada, a mesma consegue se estabelecer, tamanha a afinidade do arroz, com a água.


Dentro dessa linha de pensamento, se uma semente pré-germinada consegue se estabelecer em um ambiente um tanto quanto inóspito, e uma semente germinada dentro do solo, conseguiria se estabelecer caso iniciássemos a irrigação precoce ou seja, com o arroz ainda no ponto de agulha (Figura 1)? E dentro dessa perspectiva, será que conseguiríamos diminuir o custo com o controle de plantas daninhas?

Figura 01- Detalhe do estádio do ponto de agulha ou S3. FOTO: GROHS, M.


Dentro desse cenário, iniciou-se algumas investigações nesse sentido, na safra 2018/19, em duas estações de pesquisa do IRGA, em Cachoeirinha e em Cachoeira do Sul, bem como a nível de produtor (Figura 2) para elucidar as questões relativas ao controle de plantas daninhas e também em relação as alterações na morfofisiologia da planta, ou seja, estande inicial, perfilhamento, produtividade de grãos e qualidade física dos grãos e fisiológica das sementes.

Figura 02 – Experimento sobre manejo cultural de plantas daninhas em função da antecipação da irrigação sendo instalado na propriedade do Sr. Ricardo Lara. Foto: GROHS,M.



Os resultados de todos os experimentos são muito promissores. Primeiramente, em relação ao ponto de agulha, houve prejuízos na produtividade de grãos em todos os experimentos, na ordem de 8 a 20 %, em função do menor estande inicial registrado. Porém, o que não era esperado que a irrigação da lavoura com uma ou duas folhas trouxe um acréscimo de 116 kg/ha/dia em relação a irrigação da lavoura com três folhas. Ou seja, mesmo aquele produtor que consegue iniciar e finalizar a irrigação do arroz no estádio de três a quatro folhas, já está perdendo produtividade de grãos.

Em relação ao controle de plantas daninhas, os resultados foram muito satisfatórios (Figura 3). Quando houve a antecipação da irrigação para o estádio de uma ou duas folhas, a utilização de apenas pré-emergentes mais um dessecante, aplicado no ponto de agulha, apresentou uma média de controle de 90%, ou seja, com o uso de pré-emergente e ao antecipar a irrigação para uma ou duas folhas, o produtor melhora o controle de plantas daninhas, atingindo 100% de controle com a combinação da aplicação em pós-emergência. Desta forma, por não sofrer competição de plantas daninhas juntamente com o efeito benéfico da antecipação da irrigação ocorre o aumento de produtividade de grãos (Figura 4)

Figura 03 - Experimento sobre manejo cultural de plantas daninhas em função da antecipação da irrigação instalado na Estação Experimental do Arroz, safra 2018/19. Foto: MASSONI, P.



Figura 04 - Controle de capim arroz em função do início da irrigação e uso de diferentes herbicidas Pré-emergente. Fonte: Massoni et al. Congresso Brasileiro de arroz irrigado, 2019.



Pensando em estratégias para que não houvesse prejuízos no estande do ponto de agulha, estudou-se dois materiais genéticos de vigor diferente e também temperaturas diferentes, visto que esses dois fatores são fundamentais no processo de germinação e estabelecimento da lavoura de arroz irrigado. Para tal, foi utilizado o IRGA 424 RI e o IRGA 426, de baixo e alto vigor inicial, respectivamente. Para testar a temperatura, optou-se por semeaduras em setembro, onde a temperatura do solo é baixa, diminuindo a velocidade de emergência do arroz, e em novembro, onde as condições são mais favoráveis.

Os resultados voltaram a se repetir, com menor estabelecimento de plantas no ponto de agulha e mesmo em cultivares de alto vigor, como no IRGA 426. Em relação à época, de setembro para novembro houve uma redução média de 40% no estande, demonstrando a grande sensibilidade das cultivares de arroz ao frio, mesmo as cultivares selecionadas para essa finalidade, como o IRGA 426. Com isso, a antecipação da irrigação é uma prática recomendada em épocas de temperaturas mais elevadas, mesmo utilizando sementes com alto vigor genético (Figura 05).

O ganho em relação à antecipação da irrigação para o estádio de uma folha, comparado a três folhas, variou de 94 a 175 kg/ha/dia, para IRGA 426 e IRGA 424 RI, respectivamente, indicando um ganho em produtividade de grãos em relação ao que hoje é recomendado oficialmente. Considerando a média de todos os experimentos conduzidos na safra 2018/19, em diferentes locais, o ganho foi de 116 kg/ha/dia ao anteciparmos a irrigação de três para uma folha.

Figura 05 – Experimento sobre estratégias para a antecipação da irrigação, utilizando IRGA 424RI e IRGA 426, em duas épocas de semeadura, setembro e novembro, na Estação Regional da Região Central, na safra 2019/20. Fonte: Russo, R.



Mas qual a explicação para esse aumento tão expressivo da produtividade? Considerando as alterações eletroquímicas que ocorrem no solo inundado, culmina com a redução do potencial redox do solo, o que acarreta o aumento do pH e disponibilização de elementos de grande demanda para a planta de arroz, como fósforo e nitrogênio. E foi exatamente esses elementos que houve um maior acúmulo na massa seca, no estádio R0, quando a irrigação foi antecipada, ou seja, é possível que esse aumento de produtividade seja, em parte ao fenômeno da autocalagem. Porém, mais estudos nessa área devem ser realizados, a fim de elucidar essa questão.

Para a safra 2019/20, visto as observações realizadas no primeiro ano de estudo, foi introduzido novos fatores de investigação, como o manejo da adubação nitrogenada e estratégias para superação de estresses. Em relação ao nitrogênio, um trabalho em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria está sendo realizado a fim de determinar se haverá alguma mudança na recomendação em relação ao manejo do nitrogênio, com a perspectiva da antecipação da irrigação para estádios onde as plantas estão no início do desenvolvimento (Figura 06).

Em relação ao estudo de substâncias reguladores de crescimento, estudou-se a utilização do ácido giberélico, que é um hormônio que tem relação direta com a germinação das sementes, com o objetivo de acelerar a germinação e influência da temperatura baixa sobre o estabelecimento das plantas e desse forma, viabilizar inclusive a irrigação no ponto de agulha. Os resultados, tanto desse estudo, quanto do nitrogênio estão em processamento e serão divulgados à medida que forem processados.

De todas essas informações levantadas até o momento, os produtores podem aplicar em suas propriedades alguns princípios. Levando em consideração aquelas áreas que estão infestadas com arroz vermelho resistente e não tiveram sucesso na rotação com culturas alternativas como a soja a antecipação da irrigação é uma ferramenta bastante eficaz no manejo cultural do arroz vermelho. Como essa planta, tem seu pico de germinação no mês de novembro, deve-se planejar a semeadura da lavoura para o mês de setembro, máximo primeira semana de outubro. Utilizando uma cultivar ou semente de alto vigor, semear a lavoura e fazer o controle das plantas daninhas no ponto de agulha, utilizando dessecante de ação total e assim que o arroz emergir, proceder a inundação da lavoura. Certamente, essa lavoura será mais produtiva, mais barata e mais limpa comparada àquela em que o produtor opta retirar “camadas” até o mês de dezembro.

Espera-se que com os resultados advindos desse projeto de pesquisa possibilite a recomendação de uma irrigação antecipada na cultura do arroz que impacte diretamente sobre o melhor uso de herbicidas, principalmente os utilizados em pós-emergência, com aplicações em plantas com estádios de desenvolvimento iniciais e mais uniformes, fugindo assim de aplicações tardias com baixa eficiência. Além disso, esses resultados poderão servir de subsídios para o fomento da adoção de uma irrigação mais eficiente na cultura do arroz, visto que o atraso nessa prática, além de dificultar a eficiência dos herbicidas utilizados, diminui a eficiência do nitrogênio e prejudica o potencial produtivo das plantas.

Figura 06 – Experimento sendo conduzido na UFSM, em parceria com o IRGA, com o objetivo de avaliar a antecipação da irrigação e o manejo da adubação nitrogenada, na safra 2019/20. Foto: AUSTER TECNOLOGIA.




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